Há uns tempos contei-vos a história do Joaquim. Na altura hesitei se vos falava dele ou da Clara porque as histórias embora vividas de forma diferente são muito idênticas. Hoje falo-vos da Clara. Advogada de profissão e mãe de dois filhos. O que ninguém se apercebia é que era uma mulher que tinha uma lista de coisas que faria quando estivesse preparada.
Não era uma lista escrita. Pelo menos, não em papel. Mas existia e Clara conhecia-a de cor. Quando estivesse preparada, mudaria de trabalho para ter mais tempo, faria sozinha a tão desejada viagem a Moçambique, inscrever-se-ia no curso de costura criativa e falaria, finalmente, com a sua irmã de quem estava afastada há muitos anos.
Não pensem que Clara era uma mulher indecisa. Pelo contrário. Organizava tudo com antecedência, fazia listas, comparava possibilidades e raramente tomava uma decisão sem pensar muito sobre ela. Gostava de certezas, mas a vida parecia ter poucas para lhe oferecer. Por isso, antes de começar alguma coisa, Clara pesquisava. Lia. Perguntava. Fazia contas. Imaginava tudo o que poderia correr mal e procurava uma solução para cada possibilidade.
Quando finalmente se sentia quase pronta, surgia uma nova dúvida. E voltava a esperar.
Um dia, decidiu arrumar uma gaveta da secretária.
No fundo, encontrou um pequeno caderno que comprara anos antes. Na primeira página tinha escrito: “Coisas que quero fazer.” Sorriu e começou a ler. Algumas continuavam exatamente iguais. Aprender uma língua. Viajar sozinha. Mudar de trabalho. Fazer uma formação numa área de que gostava. Começar a escrever. Na última página encontrou uma data. Tinham passado quinze anos.
Clara ficou algum tempo sentada a olhar para aquele caderno. Não ficou triste pelas coisas que ainda não tinha feito. O que a incomodou foi perceber que, durante aqueles quinze anos, tinha acreditado que chegaria um dia em que acordaria diferente. Mais segura. Mais confiante. Sem dúvidas. Preparada. Mas esse dia nunca tinha chegado.
Nessa tarde, foi tomar café ao lugar onde costumava ir. Enquanto esperava, reparou numa criança que tentava aprender a andar de bicicleta no passeio em frente.
O pai segurava a bicicleta pela parte de trás. A criança pedalava dois ou três metros e gritava:
— Não largues!
E ele respondia:
— Não largo.
Tentaram uma vez. Depois outra. E outra. Até que, numa das tentativas, o pai deixou de segurar a bicicleta. A criança continuou. Quando percebeu que estava sozinha, desequilibrou-se e caiu. Clara esperou pelo choro.
Mas a criança levantou-se, olhou para o pai e perguntou:
— Viste até onde consegui ir?
Clara sorriu. E naquele momento ocorreu-lhe uma coisa tão simples que quase lhe pareceu absurda a criança não tinha esperado saber andar de bicicleta para começar a pedalar.
Tinha aprendido enquanto tentava. Enquanto se desequilibrava. Enquanto caía. Enquanto alguém caminhava ao lado dela.
Clara abriu a carteira, tirou o telemóvel e procurou o curso que estava há dois anos nos favoritos. As inscrições terminavam naquela noite. Durante alguns segundos voltou a ouvir todas as perguntas habituais: Será que vou conseguir?Será a altura certa? E se me arrepender?
Desta vez não tentou responder-lhes. Inscreveu-se. Não aconteceu nada de naquele momento. Não se sentiu subitamente corajosa. As dúvidas não desapareceram. E, para sua surpresa, também não se sentiu preparada. Sentiu medo. Mas sentiu outra coisa que já não sentia há muito tempo movimento.
Foi então que Clara percebeu que tinha passado anos a esperar que a confiança chegasse antes de começar, quando talvez algumas formas de confiança só pudessem nascer depois de darmos o primeiro passo. Naquela noite, voltou ao velho caderno. Não riscou toda a lista. Não marcou viagens. Não escreveu uma carta de despedimento. Não decidiu mudar a vida inteira.
Apenas riscou uma frase que, afinal, nunca tinha escrito, mas que estava presente em todas aquelas páginas:
“Quando estiver preparada.” E por baixo escreveu: “Posso começar sem estar preparada.”