Quantas vezes já começaste alguma coisa com a certeza de que, desta vez, seria diferente? Uma rotina nova, um projeto, uma mudança na alimentação, um curso, a decisão de fazer exercício, de escrever, de organizar melhor o tempo, de cuidar mais de ti ou, simplesmente, de deixar de adiar aquilo que sabes que precisas de fazer.
Nos primeiros dias há entusiasmo. Organizamos horários, fazemos planos, imaginamos resultados e sentimos aquela energia própria de quem acredita que está, finalmente, a mudar alguma coisa.
Depois, os dias passam. A novidade desaparece. A vida volta a ocupar espaço. Há imprevistos, cansaço, falta de tempo, dias em que não apetece e outros em que aquilo que parecia tão importante deixa de parecer urgente. E, pouco a pouco, começamos a falhar. Um dia. Depois outro. Até que, a determinada altura, olhamos para trás e pensamos: “Voltei a falhar.”
Talvez já te tenha acontecido. A mim já me aconteceu algumas vezes! E acredito que o problema não esteja na nossa incapacidade para levar as coisas até ao fim, mas na forma como aprendemos a começar.
Começamos com a versão ideal da nossa vida
Quando decidimos mudar alguma coisa, é muito fácil fazermos planos para a vida que gostaríamos de ter e não para aquela que realmente temos. Imaginamos que é desta vez que vamos conseguir acordar mais cedo todos os dias. Que vamos ter sempre tempo. Que vamos estar motivados e que, desta vez, nada vai interferir com o plano.
Mas a vida real não funciona assim. Há dias em que dormimos mal. Semanas em que o trabalho exige mais. Pessoas que precisam de nós. Imprevistos que surgem, preocupações que nos retiram energia e cansaço que nos impede de agir. E aquilo que parecia perfeitamente possível quando fizemos o plano começa a ser difícil de encaixar nos nossos dias.
Talvez, por isso, antes de começarmos alguma coisa, devêssemos pensar de forma diferente. Em vez de nos focarmos apenas naquilo que queremos fazer, devemos perceber de que forma a nossa decisão vai caber na vida que temos. Porque aquilo que queremos manter precisa de ter espaço na nossa realidade e não apenas na nossa intenção.
O entusiasmo ajuda-nos a começar. Mas não chega para continuar.
Os começos têm uma energia própria. Há novidade, expectativa e a sensação de que estamos a fazer alguma coisa por nós. Mas essa energia não dura para sempre. E ainda bem. Porque nenhuma mudança importante pode depender exclusivamente de estarmos motivados.
Vamos ter dias em que estamos e outros em que não. E é precisamente quando o entusiasmo diminui que descobrimos se aquilo que começámos consegue transformar-se em parte da nossa vida. Continuar é menos emocionante do que começar. É repetir vezes sem conta. É fazer mesmo quando ninguém vê e aceitar que os resultados podem demorar.
Queremos resultados antes de lhes darmos tempo para aparecer
Também desistimos porque, muitas vezes, esperamos demasiado depressa a confirmação de que estamos no caminho certo. Começamos a fazer exercício e queremos sentir rapidamente a diferença. Começamos um projeto e esperamos resultados imediatos. Mudamos um comportamento e queremos que tudo à nossa volta acompanhe essa mudança e que todos a percebam. Quando isso não acontece, começamos a questionar se valerá a pena o esforço.
É importante percebermos que nem tudo aquilo que está a crescer é imediatamente visível. Há mudanças que começam muito antes de conseguirmos vê-las. Uma escolha repetida hoje pode não parecer significativa. Mas, repetida durante semanas ou meses, pode alterar profundamente a forma como vivemos.
Depois há o perfeccionismo
Falhamos um dia e pensamos que estragámos tudo. Não cumprimos o plano durante uma semana e sentimos que voltámos ao início. Comemos aquilo que tínhamos decidido não comer. Não fomos caminhar. Não escrevemos. Não estudámos. Não fizemos aquela tarefa. E uma pequena interrupção transforma-se numa desistência.
Mas um dia não destrói um caminho. Uma semana difícil também não. Consistência não significa fazer sempre. Nem fazer sempre tudo bem. Muito menos cumprir rigidamente aquilo que decidimos. É olhar para o que aconteceu, ajustar o necessário e continuar, sem transformar uma falha numa sentença sobre quem somos.
Manter não significa fazer sempre da mesma maneira
Há ainda outra ideia que pode dificultar aquilo que começamos: acreditar que ser consistente significa repetir exatamente a mesma coisa, da mesma forma e com a mesma intensidade.
Mas nós mudamos. Os nossos dias mudam. As circunstâncias mudam. Aquilo que era possível há três meses pode precisar de ser adaptado hoje. Reduzir o ritmo não é necessariamente desistir. Alterar um objetivo não significa falhar. Fazer menos durante algum tempo pode ser precisamente aquilo que nos permite continuar.
Talvez não precises de começar outra vez
Quando abandonamos alguma coisa, temos tendência para esperar por um novo começo. Seja ele uma segunda-feira, o primeiro dia do próximo mês, janeiro, depois das férias, quando houver mais tempo, quando tudo estiver mais organizado ou quando sentirmos que não vamos falhar.
E se te dissesse que talvez não seja necessário esperar? Talvez possas simplesmente regressar, sem grandes promessas, sem transformar o regresso num compromisso rígido e sem tentares compensar tudo aquilo que não fizeste. Apenas voltar com aquilo que tens, da forma que te é possível.
Experimenta escrever sobre isto
Se há alguma coisa que começaste e tens dificuldade em manter, pega numa folha de papel e escreve: O que torna difícil continuar aquilo que comecei?
Não pretendo que respondas imediatamente com respostas óbvias como “falta de disciplina” ou “falta de força de vontade”. Vai um pouco mais longe. Será falta de tempo? Será um objetivo demasiado exigente para a vida que tens? Será que estás simplesmente a exigir de ti uma consistência que não permite dias menos bons?
Depois pergunta: O que poderia tornar mais fácil continuar?
Talvez descubras que não precisas de fazer mais. Precisas de tornar o caminho possível. Porque começar depende, muitas vezes, de um momento de entusiasmo. Continuar exige que aquilo que escolheste consiga encontrar lugar na tua vida real.
E talvez seja essa a consistência que vale a pena construir. Não aquela que nunca falha. Mas aquela que, sempre que necessário, sabe regressar.