Deixem-me que, hoje, vos fale do Joaquim, homem organizado, seguro de si e sempre alinhado. Quem o conhece depois de ler estas linhas achará que estou a mentir, porque perante a forma como se apresentava ninguém ia adivinhar que passou grande parte da vida à espera do momento ideal para mudar, mas que mudança quereria ele fazer, perguntarão alguns, ele tinha tudo para ser feliz.
A verdade é que não vos posso dizer que Joaquim era infeliz. Tinha uma vida organizada, um emprego seguro, uma casa confortável e uma rotina que conhecia de olhos fechados. Sabia a que horas acordava, o caminho que fazia para o trabalho, onde parava para beber café e até o que costumava fazer aos domingos depois do almoço.
O problema é que, há já alguns anos, Joaquim sentia algum desconforto, não sabia explicar o que era. Era apenas uma certa inquietação que, de vez em quando, lhe falava ao ouvido e lhe dizia que talvez existisse uma forma diferente de viver. Nesses dias, Joaquim dava-se permissão para sonhar, imaginava que procurava outro emprego, que iria viajar a locais que sempre quis visitar, que conhecia pessoas diferentes e que até mudava de cidade, e quem sabe até de país.
Mas era sol de pouca dura porque rapidamente encontrava uma razão para não o fazer. No inverno estava demasiado frio para começar uma vida nova. Na primavera tinha demasiado trabalho. No verão os preços eram mais altos e toda a gente estava de férias. No outono, dizia a si próprio que talvez fosse melhor esperar pelo início do ano.
Janeiro parecia-lhe sempre o mês ideal para mudar. Até que janeiro chegava e decidia adiar para fevereiro porque tinha lido algures que não se deviam tomar decisões por impulso. E assim os meses iam passando.
Mas não pensem que desistia dos seus planos. Pelo contrário, guardava-os cuidadosamente. Tinha uma gaveta onde colocava tudo aquilo que dizia respeito à vida que gostaria de viver, o recorte de uma casa numa pequena vila junto ao mar, informações sobre um curso que queria fazer, o cartão de um antigo amigo que o tinha convidado para participar num projeto e até uma lista escrita muitos anos antes com o título: “Coisas que ainda quero fazer.”
De vez em quando abria a gaveta. Olhava para tudo. Suspirava e voltava a fechá-la enquanto se convencia de que ainda não era o momento.
Um sábado de manhã, Joaquim dirigiu-se à estação de comboios para comprar um bilhete que o levava a casa da irmã. Quando chegou, percebeu que o comboio tinha acabado de partir. O próximo seria dali a duas horas. Sentou-se num banco da plataforma, ligeiramente irritado, e reparou num homem bastante mais velho sentado ao seu lado. Tinha apenas uma pequena mochila aos pés.
Talvez porque tinham muito tempo pela frente, começaram a conversar. O homem contou-lhe que estava a caminho de uma cidade onde nunca tinha estado.
— Vai de férias? — perguntou Joaquim.
— Não. Vou viver para lá.
Joaquim olhou para ele, surpreendido.
— Assim, sem mais nem menos?
O homem riu-se.
— Não é bem sem mais. Ando há quinze anos a pensar nisto.
Joaquim sorriu. Aquela resposta parecia-lhe estranhamente familiar.
— E o que aconteceu para decidir ir agora?
O homem ficou em silêncio durante alguns segundos.
— Percebi que estava à espera de deixar de ter medo.
Joaquim olhou para ele.
— E deixou?
— Não.
O homem pegou na mochila e colocou-a sobre os joelhos.
— Só percebi que podia ir com medo na mesma.
Pouco depois, o comboio chegou. O homem levantou-se, despediu-se de Joaquim e entrou. Joaquim ficou sentado na plataforma a vê-lo partir.
Naquele dia percebeu uma coisa que nunca lhe tinha ocorrido, talvez o momento ideal não fosse aquele em que todas as dúvidas desaparecessem, as circunstâncias fossem perfeitas e finalmente se sentisse preparado.
Contou-me que quando regressou a casa, abriu a gaveta e espalhou tudo em cima da mesa. Não mudou de emprego nesse dia, não vendeu a casa, não fez as malas nem começou uma vida completamente diferente. Fez apenas uma coisa.
Pegou nas informações sobre o curso que há três anos queria fazer e inscreveu-se. Era uma mudança pequena, mas, pela primeira vez, não ficou apenas a imaginar a vida que gostaria de viver. Começou a caminhar na direção dela.
Porque Joaquim percebeu finalmente que há mudanças que não começam quando encontramos o momento ideal. Começam quando deixamos de fazer do momento ideal uma condição para avançar.