Deixem-me que vos fale de Maria das Dores, a mulher que acreditava que descansar era uma perda de tempo. Sempre de passo apressado, sem tempo para conversas de circunstância ou palavras vãs. Lá ia Maria das Dores, para cima e para baixo, num frenesim de quem tinha sempre uma urgência qualquer para resolver.
Os dias começavam cedo e terminavam tarde. A agenda estava sempre cheia, a casa impecável, as contas pagas a horas e os objetivos cumpridos antes do tempo. Se sobravam alguns minutos, rapidamente encontrava alguma coisa para fazer. Dizia frequentemente que descansaria depois, mas esse depois nunca chegava, porque Maria das Dores encontrava sempre algo com que se ocupar.
Um dia, decidiu transformar a frente da sua casa num pequeno jardim. Regava as plantas, retirava as ervas daninhas, adubava a terra e observava, satisfeita, o fruto do seu trabalho. Passadas algumas semanas, começou a sentir-se impaciente. Queria que as plantas crescessem mais depressa. Então, começou a mexer na terra diariamente, convencida de que assim ajudaria as raízes a desenvolverem-se. Cavava um pouco, verificava se estavam a crescer e voltava a tapá-las. As plantas começaram a enfraquecer.
O senhor Juvenálio, reformado da profissão de jardineiro, depois de muito a observar, aproximou-se num desses dias, sorriu e perguntou-lhe:
— Sabes qual é a parte do trabalho que ninguém vê?
Ela encolheu os ombros.
— As raízes — respondeu ele. — Enquanto pensas que nada está a acontecer, é precisamente aí que a vida está a fazer o seu trabalho mais importante.
Naquele momento, Maria das Dores percebeu que tinha vivido exatamente como tratava o jardim. Nunca deixava que as suas próprias raízes repousassem. Queria crescer todos os dias, produzir todos os dias, resolver tudo imediatamente. Nunca dava tempo ao tempo.
Foi então que, pela primeira vez em muitos anos, se sentou sem fazer absolutamente nada. Ao início sentiu culpa. Depois, inquietação. Mais tarde, silêncio. E foi nesse silêncio que encontrou uma mulher que andava, há muito tempo, à sua espera.
Nesse dia compreendeu que descansar nunca tinha sido uma perda de tempo. Era o tempo de que a vida precisava para continuar a crescer por dentro.
Há dias encontrei-a em amena cavaqueira, na esplanada do café do senhor Vicente, com as vizinhas do bairro. E pode ser apenas impressão minha, mas parecia mais jovem. Mais leve. E, acima de tudo, mais feliz.