Cruzei-me apenas uma vez com a Manuela. Foi num daqueles dias onde o sol ainda está tímido e a brisa não se faz rogada. Pediu para se sentar na minha mesa, porque não havia mais nenhuma. Acedi, mesmo que me apetecesse estar sozinha. Talvez por isso não me tenha apercebido logo da vontade que tinha de conversar.
Olhou para o meu caderno e caneta, que, entretanto, tinham sido pousados na mesa, e contou-me que um dia a escrita lhe tinha mudado a vida. Sorri-lhe e sei que foi esse sorriso que fez com que continuasse. Tinha vivido um grande amor do qual tinha fugido sem dar qualquer explicação. Contou-me que apesar de ter ido em busca de uma outra vida, outros sonhos e outras realidades nunca as conseguiu viver de forma inteira. À culpa de ter abandonado juntava-se a dúvida de como teria sido se tivesse ficado.
Uns anos depois cruzara-se com ele na rua. Escondeu-se porque continuava a sentir vergonha e culpa. Não teve coragem para o enfrentar nem tão pouco para se justificar. Naquele momento foi como se tivesse recuado ao dia em que tudo tinha acontecido. Sentiu-se ansiosa, nervosa e perdida. Nesse dia pensou em escrever-lhe uma carta e assim fez. Contou-lhe sobre medos, dúvidas e também sobre sonhos. Falou-lhe sobre as viagens que fez, os empregos que teve, as pessoas que conheceu e as emoções que sentiu. Falou-lhe do que sentia cada vez que pensava na forma como o deixou. Contou-lhe, também de que nunca mais se tinha permitido em ter uma relação.
– E teve resposta a essa carta? perguntei-lhe eu
– Nunca a cheguei a enviar, mas ao escrevê-la arrumei ideias, percebi emoções e compreendi uma coisa que nunca tinha conseguido aceitar, eu não tinha fugido dele. Tinha fugido de mim.
Fiquei em silêncio. Manuela também. Durante alguns segundos, limitou-se a olhar para a chávena que tinha à sua frente.
— Passei anos a castigar-me por aquilo que fiz. Convenci-me de que não merecia voltar a amar alguém porque tinha magoado uma pessoa que me amava. Mas, enquanto escrevia aquela carta, comecei a perceber a mulher que eu era naquela altura, os medos que tinha e as escolhas que não sabia fazer. Também percebi a mulher que me tornei, as pessoas que toquei e a diferença que fui fazendo ao longo da vida. E percebi que podia continuar a viver sem continuar a condenar-me.
Depois de escrever a carta, Manuela não foi à procura dele. Não precisava de saber como teria sido a vida se tivesse ficado. Precisava de começar a viver a vida que ainda tinha pela frente.
Algum tempo depois, aceitou um convite para jantar que, noutras circunstâncias, teria recusado. Não porque estivesse preparada para um novo grande amor, mas porque, pela primeira vez em muitos anos, estava preparada para não fugir.
Antes de se levantar, disse-me:
— Há cartas que escrevemos para alguém, mas que, no fundo, somos nós que precisamos de as ler.
Manuela despediu-se e seguiu o seu caminho.
Fiquei a vê-la afastar-se enquanto puxava o meu caderno para mais perto.
Naquele dia percebi que algumas cartas não precisam de chegar ao destinatário para cumprirem o seu propósito. Às vezes, basta que nos devolvam a nós próprios.