2020 tem de ser recordado para sempre

A dois meses do Natal tenho ouvido muitas pessoas a dizerem que querem que o ano passe rápido para se esquecerem que ele existiu. Eu penso exatamente o contrário. Se há coisa que não quero esquecer é este ano. Apesar de ter sido um ano de perdas sejam elas de pessoas, de liberdade, de abraços, de concretizações, também foi um ano de desacelerar, de muita reflexão, de escolha de caminhos, de quebra de paradigmas, de muita aprendizagem, e de alguns encontros que me fazem sorrir e me aquecem o coração.

Já por aqui escrevi que “não quero a minha antiga vida de volta”, e não quero porque para mim vai ser impossível viver da mesma forma perante todos os acontecimentos deste ano. É urgente valorizarmos o que tem estado ausente seja a espontaneidade de uma visita ou de um abraço, o embarque num avião, a conversa próxima ou mesmo juntarmo-nos sem nos termos de contar.

Que 2020 nunca seja esquecido pelos movimentos de solidariedade que se geraram, pelo amor que se sentiu no ar, pela certeza de que, desta vez, a ameaça é sobre todos seja da doença seja da falta de liberdade que ou nos impomos ou nos foi imposta. Que nunca se esqueçam os que partiram, os que acusam, os que na sua falta de empatia se transformaram em juízes da praça publica. Que nunca se esqueça o medo que se sente no ar, e que faz com que muitos estejam em estado de sobrevivência. Que nunca se esqueça o ano em que os nossos movimentos foram travados, a nossa boca tapada, os afetos sonegados, e o nosso coração se tornou mais inquieto. Que nunca se esqueça a incongruência da acção de quem nos governa. Que sejam para sempre recordados os que perderam tudo, e os que continuam a lutar para que isso não aconteça.

Continuo a acreditar num mundo melhor. Continuo a pensar que podemos fazer diferente não só por nós, mas principalmente pelos outros. Em vez de nos atacarmos é urgente compreendermo-nos, unirmo-nos e perceber que somos feitos das mesmas emoções, e que perante o mesmo acontecimento agimos de modo diferente. Respeita o outro no modelo do outro, e só então serás respeitado seja qual for o teu modelo.

Não! 2020 tem de ser recordado para sempre. Não como estandarte, mas como um ano de viragem onde ou aproveitamos a oportunidade de aprendizagem ou corremos o risco de voltarmos a viver na roda do rato indiferentes ao que nos rodeia.

Cuida de ti e lembra-te de cuidar do outro! Cuida do outro e lembra-te de cuidar de ti!

Sempre com muito amor!

#fazdatuavidainspiração

One Response

  1. De acordo.
    Até porque aprendemos sempre mais com as coisas más do que as boas. As boas não servem de aprendizado, só (este só não pretende minimizar o seu efeito…) servem para nos estimular, são um alimento. Não conseguimos evoluir sem aprender. As coisas más têm essa virtude. Ensinam-nos. Claro que há outras formas de aprender. Teóricas. Há muito que os métodos de ensino perceberam que a aprendizagem precisa de teoria e de prática (para além de valores éticos, morais, estabelecimento de relações saudáveis, afirmação pessoal, etc.). Este ano é um ano de aprendizagem e de readaptação. Não está a ser fácil. Parece que a Humanidade só aprende com as catástrofes. As forças da inércia e das zonas de conforto são muito grandes.
    Por aqueles que sofreram perdas irreparáveis, que são muitos, em sua memória, não o podemos esquecer.
    Como somos frágeis! Este ano veio prová-lo, caso houvesse dúvidas. E quando este passar outros aparecerão. Não saberemos é quando. A sociedade não pode parar sempre que se instale uma situação de catástrofe. Ou pode? Acho que ainda não aprendemos como viver com isto, tão mergulhados estamos nas narrativas “jornalísticas” e na leitura de estatísticas baseados em dados manipulados ou incorrectos ou incompreensíveis. É também por isso que não podemos esquecer. Seria como mandar os problemas para trás das costas e dizer que “pronto, ok, já passou…”. Não, não passou.
    Falta perceber porque neste clima, os ricos, ficaram ainda mais ricos. Adaptaram-se melhor? Estavam à espreita? O facto de não terem de pensar em comer, em vestir, em se perderem nos problemas do dia-a-dia deixa-os prontos para “atacar” aos primeiros sinais de mudança? Como conseguiremos ser ricos sem dinheiro? Isto é, como conseguiremos ter a visão e o alheamento dos ricos sem ser ricos? Talvez, talvez, se conseguirmos não ter as necessidades que a sociedade nos vai criando como fundamentais… casa, carro, roupa, etc.
    Se esquecermos, e apostava umas quantas “fichas” em como é isso que a sociedade vai fazer – sendo certo que é isso que a sociedade, como um todo, quer fazer – vamos ficar igualmente, ou ainda mais, vulneráveis. E já se vêm noticias de outros vírus a aparecer por aí…
    Vamos viver para sempre com uma máscara no rosto e sem abraçar os que estimamos? Vamos deixar que as opções de vida sejam definidas pelo medo? Não haverá outra forma de aprender e reagir que não seja criando o medo? A longevidade da vida vale tudo isso?
    Este ano tem demasiado potencial de aprendizagem para ser esquecido…

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